Criando resiliência na indústria de azeite de oliva
14 de setembro de 2026

As mudanças climáticas estão transformando a produção de azeite de oliva no Mediterrâneo e alterando a economia do setor. Para continuarem tendo lucro, os produtores terão que ajustar seus processos e extrair mais valor das suas colheitas. A inovação da GEA está ajudando-os a fazer a transição.
Não é de se admirar que nosso amor pelo azeite de oliva tenha suas raízes no Mediterrâneo. Há milênios, o clima do local tem oferecido as condições perfeitas para o cultivo e a colheita de azeitonas. Ainda hoje, a região concentra a maior parte da produção mundial de azeite, sendo que Espanha, Itália, Grécia, Turquia, Tunísia e Marrocos respondem por cerca de 80% da produção global, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
Porém, as condições estão mudando. O clima subtropical mais ameno do Mediterrâneo deu lugar a um calor insuportável, padrões irregulares de chuva, escassez hídrica e, de modo geral, a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Por milhares de anos, as oliveiras puderam contar com um breve e crítico período de "sono" durante o inverno, mas os últimos invernos não foram suficientemente frios. As temperaturas mais altas alteraram o solo e sua capacidade de reter água. O calor excessivo durante a colheita significa que as azeitonas estão se oxidando e fermentando antes mesmo de chegarem ao moinho. Como resultado, os níveis de álcool estão muito altos, os ácidos graxos livres estão muito altos e os polifenóis benéficos estão sendo destruídos. Além disso, os teores de óleo estão mais baixos do que antes, enquanto um número maior de traça-da-oliveira está aumentando o teor de proteína na fruta e dificultando a extração do óleo. E a lista é longa.
Com certeza, tanto a produção quanto a qualidade do azeite de oliva foram prejudicadas. Na safra de 2022/2023, a produção de azeite da UE caiu cerca de 40% em relação ao ano anterior, segundo a Comissão Europeia, principalmente devido à grave seca e ao estresse térmico em importantes regiões produtoras, como a Espanha. Embora a produção tenha se recuperado na safra de 2023/2024, a safra de 2025/2026 apresentou variações em toda a Europa: algumas regiões se recuperaram, enquanto outras foram prejudicadas pelo calor, pela seca, por pragas e pelo ciclo natural de alternância de produção das oliveiras.
Apesar da melhora nos rendimentos observada mais recentemente, isso não se traduziu de forma consistente em óleo de melhor qualidade. As revistas alemãs de testes de consumo “Warentest” (26/02) e Ö ko-Test (26/04) reportam que muitos azeites de oliva vendidos no varejo apresentam defeitos sensoriais ou contêm traços de componentes de óleo mineral, plastificantes ou pesticidas. Vários produtos “extravirgens” não atenderam aos padrões de sabor exigidos por essa denominação. Enquanto isso, as quedas na produção entre 2022 e 2024 fizeram com que os preços ao consumidor subissem cerca de 78%, e o mercado só começou a se normalizar em 2025. Esse episódio revelou o quanto as cadeias de abastecimento de azeite de oliva são vulneráveis a perturbações causadas pelas mudanças climáticas.
Como resultado, os produtores são obrigados a repensar não apenas seus processos, mas todo o seu modelo de negócios. A tecnologia não pode resolver a escassez de água na plantação, mas pode ajudar os moinhos a agir nas áreas em que têm influência direta: reduzindo a necessidade de água adicional para o processo, diminuindo os volumes de águas residuais e aumentando o valor recuperável de subprodutos, como a água da vegetação e o bagaço úmido.
Novas condições, novas soluções para um processamento de azeite de oliva mais sustentável
Com mais de 70 anos de experiência no processamento de azeite de oliva, a GEA tem aberto o caminho para uma produção mais eficiente e sustentável ao longo dos anos - ajudado a indústria a mudar de eixo quando necessário. No início da década de 1990, a GEA revolucionou o processo convencional de separação em três fases ao introduzir o decantador de duas fases. Agora, esse método é o padrão da indústria, pois aumenta a eficiência do processamento, gera menos águas residuais e reduz drasticamente o consumo total de água. Hoje, a maioria das maiores fábricas do mundo utiliza equipamentos da GEA para produzir azeite de oliva – e a GEA está buscando maneiras de ajudar a enfrentar os novos desafios do setor.
Steffen Hruschka, que possui doutorado em Engenharia de Processos de Alimentos, é um dos especialistas da GEA em processamento do azeite de oliva. Ele ajudou a introduzir e desenvolver ainda mais os processos de decantador bifásico e alternativo "Ao longo da história, garantir a qualidade do azeite significava assegurar que as azeitonas não estivessem maduras demais no momento da colheita e da moagem. Atualmente, as azeitonas estão amadurecendo muito mais rápido e precisam ser colhidas mais cedo - em temperaturas em torno de 30 graus Celsius, em vez de 10 a 17 graus Celsius, como no passado. Nessas condições, manter a qualidade se torna muito difícil”. Aqui, a GEA ajuda os produtores a enfrentar esse desafio com um equipamento que manuseia suavemente as azeitonas durante a colheita; isso minimiza a oxidação e prolonga o frescor da azeitona. "Hoje, estamos procurando maneiras de influenciar os parâmetros do processo em linhas automatizadas para que os produtores possam recuperar a mesma quantidade e qualidade de óleo de antes, mesmo nessas condições difíceis. Sistemas de resfriamento adequados são outro aspecto da produção eficaz", explica Hruschka.
Ao mesmo tempo, a GEA está desenvolvendo soluções para ajudar os produtores a extrair mais valor de sua colheita em toda a cadeia de valor. "No passado, o azeite era considerado a única fonte de valor. Hoje, os produtores enfrentam um futuro bem diferente, especialmente na região do Mediterrâneo. “Uma situação em que o óleo, por si só, não será suficiente para sustentá-los economicamente”, diz Hruschka.
Cada vez mais produtores reconhecem a necessidade de gerar renda por outras vias: a partir dos caroços, do suco de frutos e da polpa - ou de todos os três - antes que se transformem em resíduos.
Steffen Hruschka
Engenheiro de processos sênior, GEA

Os invernos amenos, os verões quentes e a seca exercem uma pressão enorme sobre as oliveiras, afetando a quantidade e a qualidade das azeitonas. As soluções da GEA ajudam os produtores a manter a lucratividade, permitindo extrair mais óleo de suas safras e valorizar seus subprodutos.
Rumo a uma economia circular do azeite de oliva
Hruschka, que desenvolveu cerca de 40 patentes da GEA, abrangendo o processamento de azeite de oliva, recuperação de proteínas e design de máquinas, foi fundamental no desenvolvimento de um novo método de processamento para recuperar o valor adicional do chamado "bagaço úmido" - o produto residual da produção de azeite de oliva de duas fases. O bagaço úmido representa cerca de 80% do peso total de uma colheita de azeitonas. Como em muitos outros setores, esse subproduto de alto volume era tradicionalmente considerado um resíduo. Agora não mais. "Há dois motivos muito convincentes para tratar esse fluxo de resíduos de forma diferente", diz Hruschka. "Primeiro, o descarte do bagaço úmido se tornou mais desafiador devido ao seu impacto ambiental. Com o reprocessamento e a reutilização, resolvemos esse problema. E, em segundo lugar, o bagaço contém óleo, água e materiais orgânicos, que têm valor econômico”.
O azeite adicional extraído do bagaço - embora não tenha mais a qualidade extra virgem - pode ser usado em uma série de aplicações culinárias e industriais. “Nossa solução produz mais azeite, de melhor qualidade e com menos óleo residual no bagaço, o que também funciona com bagaço mais velho”, explica Hruschka. A água recuperada do bagaço fresco é rica em açúcar e polifenóis não oxidados, que podem ser usados nos setores químico, de cosméticos, de alimentos e de rações. O bagaço restante - o resíduo sólido - contém açúcar, proteína, amido e celulose Esse pode ser usado em aplicações de bioenergia, em ração animal ou misturado com outros materiais orgânicos para produzir húmus para enriquecer o solo. "Todos esses são subprodutos que os produtores podem monetizar, e a perspectiva de melhorar o solo é particularmente valiosa no contexto das mudanças climáticas", diz Hruschka. "O calor, as condições de seca e o vento degradaram bastante o solo. Se não resolvermos esse problema, não haverá indústria de azeite de oliva no futuro”. A GEA está trabalha com universidades e outros parceiros para investigar e promover o uso de resíduos sólidos de bagaço como fertilizante para aumentar a saúde e a produtividade do solo na região do Mediterrâneo.
Apoiar e organizar a mudança de paradigma
Um desses parceiros é a arteFakt, uma cooperativa alemã com cerca de 1.000 membros em toda a UE. Sua missão é desenvolver parcerias com produtores de azeite de oliva na Itália, Grécia e Espanha para produzir e comercializar azeites de oliva extra virgem de qualidade suprema. Em segundo lugar, ela busca educar os produtores, inclusive aqueles com operações de pequeno e médio porte, sobre como produzir de forma mais sustentável e econômica. A cooperativa também procura os consumidores para ampliar a conscientização sobre a qualidade do azeite de oliva e a importância de apoiar os produtores locais.
Conrad Bölicke, fundador da arteFakt, sabe o quanto a situação é grave para os agricultores europeus. Ele acompanha de perto as plantações de azeite de oliva de seus membros locais. "Observamos uma deterioração drástica da situação há anos", diz ele. "Todo o sistema agrícola do Mediterrâneo precisa se adaptar com urgência. Estamos facilitando e apoiando a mudança de paradigma", diz Bölicke. No entanto, as mudanças exigidas não podem ser alcançadas sozinhas, e é por isso que são necessários parceiros fortes, especialmente do setor de engenharia mecânica. "Em 15 a 20 anos, um produtor europeu de azeite de oliva não conseguirá mais viver apenas do seu azeite", diz Bölicke. "Isso pode significar efetivamente o fim do azeite de oliva europeu, o que, obviamente, queremos evitar.
Precisamos traçar um novo rumo para alcançar um aumento no valor agregado que leve a uma maior lucratividade. Para isso, precisamos de tecnologias pioneiras que sejam mais eficientes e nos permitam aproveitar melhor os recursos existentes.
Conrad Bölicke
Fundador e presidente do conselho da arteFakt

A arteFakt é uma cooperativa com sede na Alemanha e membros em toda a UE. Sua missão é fazer parcerias com produtores de azeite de oliva na Itália, Grécia e Espanha para promover a produção e a comercialização de azeites de oliva extra virgens de qualidade suprema. Ela também ajuda os produtores a se tornarem mais resistentes, trabalhando com os consumidores para ampliar a conscientização sobre a qualidade do azeite de oliva e a importância de apoiar os produtores locais. (Imagem: arteFakt)
A GEA está trabalhando com o laboratório Eurofins Analytik, em Hamburgo, e outros parceiros, em projetos-piloto de “desperdício zero” para extrair 100%de valor da azeitona. Esses conceitos podem ser compartilhados e usados por produtores do sul da Europa. Essa abordagem transforma a produção de azeite de oliva, passando de um processo linear para um sistema circular, no qual os subprodutos, como o bagaço, os caroços e a água de extração, não são mais tratados como resíduos, mas sim como recursos em potencial.
A água, em particular, desempenha um papel fundamental nessa transição: A moagem de azeitonas gera volumes significativos de água de processo, o que, historicamente, tem sido um grande desafio ambiental para os moinhos. Cada vez mais, essa questão vem sendo abordada por meio de tecnologias avançadas de separação e tratamento que permitem a recuperação parcial e a valorização de compostos valiosos.
Em todo o sul da Europa, elementos desse modelo estão sendo testados em ambientes reais de produção. Um produtor espanhol integrou um decantador da GEA para valorizar os subprodutos do azeite, reduzindo drasticamente os resíduos do processamento e, ao mesmo tempo, gerando renda adicional por meio do processamento posterior dos caroços, da água de azeite e do bagaço. E outros querem fazer o mesmo.
Um caminho a seguir e um futuro para os produtores de azeite de oliva
"O impacto negativo da mudança climática nos últimos anos criou um senso de urgência no setor, mas também uma oportunidade", diz Hruschka, que aponta para o grande volume de subprodutos que agora podem ser bem aproveitados. Ele estima que metade da colheita de azeitona, em peso, pode ser transformada em material orgânico para uso como húmus. “Se considerarmos uma colheita de 7 milhões de toneladas métricas de azeitonas na Espanha, por exemplo, isso equivale a 3,5 milhões de toneladas de material utilizável por ano - somente na Espanha. O húmus pode ser usado para enriquecer o solo e garantir as colheitas futuras”, afirma ele. “Os produtores podem usar isso para aumentar a sustentabilidade e a produtividade de suas próprias operações e também vendê-lo a outros produtores”. Há claramente um grande potencial adicional na pequena oliveira, e a indústria tem a capacidade de explorá-lo com as soluções e a mentalidade certas.
